Juliana Robim de Figueiredo Silva
RELATO
DE EXPERIÊNCIA Resumo:
O presente trabalho pretende ser o relato de uma experiência escolar
com alunos de 5ª série do Ensino Fundamental, na tentativa de construir
conceitos relacionados ao saber histórico.
Embora o caminho para o trabalho com os Eixos Temáticos ainda esteja
repleto de percalços, realizei com minhas turmas um trabalho que visava
prepará-los para qualquer assunto relacionado à História
ensinada, uma vez compreendidos, assimilados e construídos os conceitos
de sujeito, fato, fonte tempo histórico.
Utilizei para tanto, ferramentas diversas tais como: aulas expositivas, constantes
diálogos e questionamentos com os alunos, leituras diversas, exemplos
mais próximos da realidade deles, entre outros.
Vi a necessidade incontestável de trazer para a sala de aula a discussão
do que até então para muitos era indiscutível: as verdades
históricas. Assim, desdobrei-me para criar atividades pertinentes ao
tema, como quando lemos o conto chinês ou construímos a linha
do tempo.
No entanto, ao ler meu relato, vejo que ainda há muito o que fazer,
dado que durante parte do percurso sobre o qual discorro, encontrei-me bastante
confusa, o que faz com que eu queira rever a minha prática com os olhos
de outros colegas.
Escola: E.E. Parque Marajoara II
Diretoria: Santo André
Série: 5ª do Ensino Fundamental
Tema e sua relação
com os documentos oficiais:
Os Parâmetros Curriculares Nacionais prevêem que no Ensino de História
no nível Fundamental, seja necessário conceituar: fato, sujeito
e tempo histórico. Sugere também que o ponto de partida para
o estudo da História seja a realidade do aluno, ou seja, o seu presente.
Portanto, essas construções de conceitos são o tema das
minhas primeiras aulas, que preparariam meus alunos para os conteúdos
a serem trabalhados no correr do ano.
Objetivos:
•
Compreender que a escrita da História é só uma questão
de ponto de vista;
•
Perceber a presença da História na vida cotidiana;
•
Conceituar fato, sujeito e tempo histórico;
•
Reconhecer-se como sujeito histórico;
• Questionar a realidade;
•
Compreender a importância das fontes históricas.
Materiais utilizados: Cópias de um conto chinês, objetos
escolares dos alunos, folhas de sulfite, revistas, cola, tesoura, lápis
e canetas.
Desenvolvimento do trabalho:
Leciono História há pouco mais de um ano, e pela primeira
vez, peguei aulas nas 5ª séries.O planejamento da minha escola,
que ainda é feito por eixo cronológico, prevê como
primeiro conteúdo a ser trabalhado, o tema: “O que é História”.No
entanto, não era claro para mim o que isso abrangeria, então,
na tentativa de construir conceitos básicos com meus alunos, desenvolvi
as seguintes atividades aqui relatadas, que são correspondentes
a aproximadamente um bimestre, logo no início desse ano.
Como não conhecia as crianças com as quais eu iria trabalhar,
vi-me sem saber como introduzir conceitos históricos a elas, que
acabaram de sair do 2º ciclo e estão muitas vezes impregnadas
de idéias no mínimo confusas sobre o que vem a ser História.
Resolvi então, assim como prevêem os PCN’s, partir
da realidade de meus alunos e na primeira aula, apresentei-me e pedi
para que eles se apresentassem dizendo seus nomes, idades e o que mais
gostavam de fazer (e o que de fato faziam) quando não estavam
na escola. Eles disseram em voz alta todas essas informações
e depois as escreveram em um papel para me entregar.
Levei esse material para casa e montei o perfil de meus alunos: crianças
ligadas ao mundo da internet, que têm em sua maioria, passatempos
como os de assistir TV, jogar videogames, bater papo pelo MSN ou passar
horas mexendo em seus perfis do Orkut.
Nesse momento, percebi que eu tinha um problema: De que forma começar
um trabalho sem saber o que eles traziam de bagagem? O que será que
eles pensavam sobre História? Será que achavam que História
resume-se a datas comemorativas? Ou não?
Senti necessidade de fazer uma sondagem dos conhecimentos prévios
de meus alunos, para, a partir do que detectasse, começasse um
trabalho de conceituação.
Na aula seguinte então, fiz uma “Tempestade de idéias”,
explicando a eles, que essa atividade consistia em que eu dissesse uma
palavra e que eles respondessem rapidamente com a primeira idéia
que lhes viesse à cabeça, ligada a essa palavra. No caso,
a palavra era “história”...
O resultado desse primeiro momento não foi surpreendente. Palavras
como “Descobrimento”, “Brasil”, “Tiradentes”, “Índios”, “Coisas
antigas”, entre outras, revelam que essas crianças viam
a História como algo factual e desconectado de suas histórias
pessoais, como momentos prontos, acabados, velhos e distantes. Nesse
dia, listei todas essas palavras ditas por eles na lousa, e depois que
todos falaram, fomos conversando sobre algumas delas, mais recorrentes.
O próximo passo foi retomar com eles na aula posterior suas concepções,
quando eles foram falando o que já sabiam e tinham aprendido sobre
a disciplina. Constatei que eles não sabiam o que era ou não
parte do estudo de História e que também viam a matéria
escolar como algo indiscutível, verdade absoluta.
Foi nesse momento que julguei possível e necessário introduzir
a primeira idéia (e na minha opinião, a mais importante)
sobre História: a questão do ponto de vista.
Levei para a sala de aula várias cópias de um conto chinês,
e sentados em dupla, os alunos leram os parágrafos do mesmo, parando
aos poucos para algumas intervenções e questionamentos
meus.O conto escolhido falava de um rei que queria provar a seus ministros
que não havia verdades absolutas e que então propôs
uma experiência aos mesmos para provar o que ele dizia. Chamando
todos para presenciarem aquele momento, o rei colocou em seu salão,
um elefante e vários cegos de nascença que não conheciam
o animal. Cada cego tocou uma parte do corpo do paquiderme e teve que
descrevê-lo tal qual o percebesse. Assim, cada um deles descreveu
algo totalmente diverso do outro, o que o rei explicou ser aquilo um
exemplo de que nada no mundo é absoluto, é só uma
questão de ponto de vista.
Terminada a leitura do texto, fizemos uma interpretação
oral do mesmo, que por sinal, os alunos adoraram, achando-o fascinante.Seguimos
fazendo o vocabulário e a interpretação escrita
do mesmo, quando pude verificar que as crianças compreenderam
perfeitamente a idéia do conto.
No entanto, ainda considerava necessário aproximá-los mais
ainda dessa metáfora da História, e em outro momento, retomamos
o texto, com os alunos falando sobre o mesmo e suas impressões
acerca do assunto tratado ali. Nessa aula, desejei fazê-los perceber
concretamente que a História que eles aprendem na escola é um
conhecimento escrito por alguém que está vendo determinado
lado, como os cegos do conto. Sentados em círculo, escolhi uma
mochila e a coloquei em pé, no centro da sala. Pedi então
que quatro crianças posicionadas de forma diversa (à direita, à esquerda, à frente
e atrás da mochila), descrevessem o objeto a partir do ângulo
em que o viam. Terminada a atividade, ouvi comentários do tipo: “Nossa, é mesmo,
hein?”, “Tô vendo a mesma coisa que ele, mas não é do
mesmo jeito” e outras frases do gênero. Sugeri que eles observassem
a partir de então, que tudo a nossa volta tem sempre mais de um
lado e que um olhar complementa o outro.
Seguimos essa “introdução” ao estudo de História
para que eles aprendessem que tudo o que veríamos pela frente,
estava baseado na visão de alguém, e não na visão
total daquilo.
Após esses primeiros momentos, e continuando sempre a conversar
com eles sobre os objetos de estudo da disciplina, seus problemas e outras
características, inseri o conceito de sujeito histórico
através da construção de linhas do tempo, para as
quais pedi que eles marcassem no início suas datas de nascimento
e no fim, o presente ano, anotando suas entradas na 5ª série.
Entre a marcação de seus nascimentos e a da mudança
de escola, pedi que eles anotassem mais três fatos significativos
de suas vidas, sempre do lado debaixo da linha. Acima da linha, eles
deveriam descobrir o que estava acontecendo no nosso país naquelas
datas que eles assinalaram como sendo momentos importantes para eles.
Fatos como: “morte da minha avó” tinham relação
agora com “Lula foi eleito”. Falei com eles que suas vidas
não eram menos importantes que a de Tiradentes _ por exemplo,
e os questionei porque será que a desse homem aparecia nos livros
enquanto a deles não. As respostas giraram em torno da suposta
importância desse personagem para um número maior de pessoas.
Além disso, fez parte desse exercício de percepção
da História como elemento cotidiano, uma aula em que os alunos
receberam revistas para recortar. Eles deveriam procurar imagens que
retratassem coisas das quais eles gostavam e outras que tinham relação
com o que eles chamavam de História. O segundo passo da atividade
era separar as imagens em 2 folhas de sulfite, colando de um lado as
primeiras figuras, e do outro as restantes.
Mais tarde, coladas as imagens, eles tiveram que estabelecer relações
entre as duas partes, explicando como a História estaria presente
em suas vidas. Nesse momento, deveriam perceber que muitas imagens que
retratavam situações que lhes eram agradáveis poderiam
ser objetos de estudo da História.
Ainda nessa fase de conceituação e para que eles se percebessem
enquanto sujeitos históricos, introduzi as fontes históricas,
as quais abordei usando o exemplo de um crime a ser reconstituído,
para o qual seriam necessárias as pistas (fontes históricas).Simulamos
situações em que seriam necessários, muito rigor
na pesquisa, seleção e interpretação dessas “pistas” para
a reconstrução de um “cenário”. As crianças
até mesmo criaram suposições do tipo: “Se
daqui um tempo, alguém quisesse saber como era a 5ª B hoje,
como saberia?”, “Em que fontes obteriam informações?”, “Todas
as informações diriam a mesma coisa?”. Foi assim
que eles compreenderam o ofício do historiador.
Finalizei essa parte introdutória falando sobre o tempo cronológico,
como era perceptível, mensurável, sua importância, quando
surgiu da forma como o conhecemos hoje e até mesmo foi possível
conversarmos sobre conceitos como simultaneidade, anterioridade e posterioridade,
até retomando a linha do tempo.
Após todo esse trabalho, essa forma, considerei que os alunos estivessem
senão totalmente prontos, eu diria mais bem preparados para aprender
o saber histórico e construírem seus próprios saberes.
Dificuldades e ganhos:
No instante presente, em que faço a retrospectiva desse trabalho, consigo
ver com mais clareza, alguns pontos a serem revistos e outros, a serem enfatizados.
Julgo que a maior parte de meus alunos de fato aprendeu alguns conceitos, como
os de fontes históricas, além de compreenderem que não
há verdades absolutas. No entanto, acho que o trabalho com o tempo ficou
falho, talvez um pouco incompleto, e que a linha do tempo poderia ter sido
trabalhada de forma mais intensa, pois alguns alunos até desistiram
de faze-la por não compreenderem alguns pontos.
Revendo esse trabalho, vejo-o como chave no processo para entender qualquer
assunto relacionado ao saber histórico, mas todos os conceitos devem
estar sendo retomados dia-a-dia para que não se percam.
Percebi que muitas vezes, eles ainda se pegam achando estranho quando coloco
mais de uma versão de um fato, pois isso é algo que foi dito
a eles anteriormente, mas ultimamente, tenho percebido consideráveis
avanços nesse ponto.
Finalmente, o mais prazeroso de tudo isso, é ver as crianças
interessando-se tanto pelas minhas aulas, que pra todo assunto que abordamos
na sala, sempre um deles traz material ou vem comentar que viu algo relacionado.
Creio que atrai-los para uma paixão minha, seja meu verdadeiro ganho.
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